First Trailer For FAROESTE Brings Out The Big Guns

The first trailer for Abelardo de Carvalho's Faroeste (Western) might appear intriguing to some: a western shot in Brazil? Yes, it is quite unusual, but Carvalho's debut brings back to screens a genre that was quite popular in the country a few decades ago, with films now commonly known as "Feijoada Westerns".

Teaming up with Rio based producer Cavi Borges, the director shot the film in the small city of Pains, in Minas Gerais, in the heart of the region where the notorious real life killer Luís Garcia was killed after leaving a trail of blood behind himself in the early years of the 20th Century. Release info is still TBA for the low budget production, which was written by Carvalho himself, based on stories of his book "Bestiário". Here's the official synopsis:

A farmer leaves his hometown to search for gold as a gift to his beloved. But what seemed to be just an ordinary journey turns out to be the inner search of a man, who in the midst of a mystical crisis, clashes with the triviality of everyday life, creating a scene of evil and unrest among his peers. Luis Garcia is the embodiment of change, as he makes us realize, throughout his journey, his internal changes and external provocations.

The various spheres of human feeling are present in this film, Faroeste. However, this is a western without shooting, without historical duels, in which the real conflicts are given in the context of religious and ethical awareness. It's a film about silence, introspectiveness, about the archaic interior of Minas Gerais, with all its traditions, that serves as a backdrop to the saga of Luis Garcia, which will led him to the most unthinkable of deaths. It's a psychological clash that goes back to the drama of Riobaldo, main character of "The Devil to Pay in the Backlands", from Guimarães Rosa. All violence is more suggested than shown, in a staging of human restlessness and memory. Without missing the measured pace of the rural experience, the film outlines the allocation of an universe in which cruelty and villainy punctuate the lives of the characters with the rigor of the great tragedies.

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  • Adriano Reis

    Faroeste, “O Sertão é o Mundo”

    Por Adriano Reis

    É a partir de planos-detalhe da
    indumentária de Luís Garcia, no início do filme, que o espectador tem o
    primeiro contato com o personagem central de “Faroeste”. Anéis, o relógio de bolso, o cinturão de
    couro carregado de balas de revólver, o chapéu, o rifle, as esporas e as botas
    bem lustradas são mostrados um a um enquanto Luís Garcia se veste. Essa
    exposição da cena de abertura de “Faroeste” mostra que a mitologia no western
    nasce de histórias acompanhadas de rituais.
    O homem de preto, que pela tradição do faroeste americano, em que os
    trajes escuros são a representação do mau caráter, do homem sem lei, o figurino
    escuro de Garcia, nas cenas iniciais de “Faroeste”, não permite saber se ele é
    do bem ou do mal.

    Ainda nos momentos
    iniciais, Luís, por alguns segundos, encara a câmera, em um jogo de câmeras
    subjetivas com objetivas como se fosse um duelo. Para o espectador fica a
    expectativa de uma revelação. Porém, o
    espectador saberá que ritual de Garcia vai levá-lo à morte por uma voz em off:
    “Luís Garcia... que só gostava do que era bom e bonito... tudo era ouro e
    prata...por ironia se acabou cravejado por mais ordinário chumbo!” Além da voz em off e da trilha sonora, são
    ouvidos sons distantes de batidas de um relógio. O som mais acentuado do
    relógio (referência a Matar ou Morrer, 1952, de Fred Zinnemann) marcará o
    início do conflito em “Faroeste”.

    No Cahiers do Cinéma, André Bazin escreveu
    que ”Sete Homens Sem Destino” (1956), de Budd Boettiche, trazia na trama
    rigorosamente clássica todo o encantamento. Bazin também observou que Boettiche
    soube se servir da paisagem, da terra, do grão e dos rochedos e, sobretudo, da
    indumentária do xerife, para realizar um dos melhores westerns da história do
    cinema do pós-guerra. “Faroeste”, longa-metragem de estreia de Abelardo de
    Carvalho, traz elementos reconhecíveis da iconografia de faroestes americanos
    aos bang-bangs à italiana. Todavia, Abelardo de Carvalho segue por outras
    trilhas bem distantes da obra de Boettiche ou do Monument Valley, imortalizado
    por John Ford e Sérgio Leone. A paisagem de “Faroeste” é a do sertão de Pains,
    região centro-oeste de Minas Gerais. É o
    sertão onde se encontram elementos vindos da geografia mineira, da natureza, de
    rituais míticos-religiosos de pessoas que habitavam o lugar, da arquitetura das
    fazendas e vilarejos para construir um dos melhores filmes do cinema
    contemporâneo brasileiro.

    O sertão de Abelardo de Carvalho é próximo ao sertão de Guimarães Rosa, “O Sertão
    é o Mundo”, um mundo que pode ser
    registrado, transformado e, principalmente, manipulado. Assim, “Faroeste” narra
    a saga do lendário Luís Garcia, um homem que vagava pela região de Pains, na
    primeira década do século XX, desafiando o poder de Deus, exorcizando demônios,
    provocando a ira e criando o mito entre as pessoas do lugar. A história em
    “Faroeste” é narrada por um Cigano sanfoneiro, que escapa da emboscada à Luís
    Garcia, em forma de confissão a um padre e a uma roda de pessoas (e a nós
    espectadores). Partindo do depoimento de Cigano, em flashback, que a obra de
    Abelardo de Carvalho se distancia dos westerns tradicionais, mesmo se
    orientando pelos elementos iconográficos eternizados pelos filmes do gênero. A
    oralidade de Cigano é muito bem
    trabalhada por Abelardo de Carvalho, criando um jogo de esconde-esconde ambíguo
    dos acontecimentos obscuros da morte de Luís Garcia. Das idas e vindas da
    narração de Cigano, no “sertão mundo”, criado por Abelardo, é que nasce o mito
    no centro-oeste mineiro.

    Em “O Homem Que Matou o Facínora”, dirigido
    por John Ford, em 1962, Ford também faz
    um jogo não deixando claro se as histórias contatas pelo senador Stoddard,
    interpretado por James Stewart, são fatos, lendas, mentiras ou verdades. Um dos
    jornalistas ouvintes do relato do senador, nas cenas finais de “O Homem Que
    Matou o Facínora”, diz a famosa frase : “Aqui é o Oeste, Senhor. Quando a lenda
    torna-se fato, publique-se a Lenda”. O importante para Ford e Abelardo não é
    desmascarar o mito contando a verdade. Assim, o cinema foi criado para que a
    imaginação e a ilusão se sobrepusessem à realidade.

    O pesquisador Paulo Perdigão escreveu no livro
    “Western Clássico, Gênese e Estrutura de Shane”, ao estudar o faroeste “Shane,
    Os Brutos Também Amam, de 1953, de George Stevens, que: “a sociedade cria o
    mito de que necessita, as histórias lendárias são uma ordenação simbólica das
    exigências e necessidades humanas em determinada situação social”. Deste modo, o
    homem montado em um cavalo branco, de bigode , com as pontas viradas para cima
    e zarolho, pode ser a personificação do cangaceiro Lampião do centro-oeste
    mineiro. Luís trafegava entre o mal e o bem, enfrentando os coronéis, a Igreja, o poder do Estado, bandidos,
    ciganos, frequentando bordeis e cobiçando riquezas, sendo observado pela
    vegetação e pela geografia do cerrado. A fotografia de Vinícius Brum dá o tom certo
    às cores e às imagens do sertão. Em alguns momentos a gente tem a sensação de
    estar sendo molhado pelo orvalho da manhã. A paisagem em “Faroeste” constrói os
    símbolos entre Garcia e o seu meio.

    “Faroeste” é também
    uma radiografia de um machismo moldado nos costumes. A direção de Abelardo de
    Carvalho é rigorosa. Com uma rara maestria técnica, ele consegue fragmentar
    algumas cenas encerrando- as em si mesmas, reforçando a ideia de distanciamento
    entre os espaços, o presente e o passado dos acontecimentos dos fatos. A câmera de Vinícius Brum é praticamente fixa.
    Porém, em alguns momentos, a câmera fica móvel, por exemplo, para acompanhar o
    galope em disparada de Luís Garcia entre as árvores. A cena, particularmente,
    me levou ao início do cinema com o lançamento do primeiro western
    cinematográfico, “O Grande Roubo do Trem”, dirigido por Edwin Porter, em 1903.
    “O Grande Roubo do Trem” contribuiu com a linguagem cinematográfica
    apresentando a montagem paralela em episódios, ações em vários lugares e,
    principalmente, quando a câmera ganha movimentos espetaculares, como nas cenas
    de perseguição aos bandidos a galope entre árvores.

    Outra contribuição importante de
    “Faroeste” com a técnica cinematográfica brasileira é a do desenho de som. O
    único áudio captado pela equipe de Bernardo Uzeda é o som guia durante as
    filmagens. Todas as pistas de som ambiente, da belíssima trilha sonora
    (composta por Uzeda) dos diálogos, dublados por nomes famosos da dublagem
    nacional, foram colocados posteriormente em estúdio. Conforme já citei acima,
    muitos sons extracampo nos auxiliam a acompanhar a história, como as batidas do
    relógio nas cenas iniciais do filme ou da quebradeira da casa de Luís pelos
    homens da guarda. A dublagem das falas dos atores em “Faroeste” é uma homenagem
    de Abelardo aos faroestes dublados, exibidos pelas sessões bang bangs da TV.

    Porém, essa
    exacerbada criatividade linguística está bem mais próxima de o Grande Sertão:
    Veredas, de Guimarães Rosa, com a
    utilização de elementos linguísticos “do homem do mato”. Do ponto de vista da
    linguagem, o trabalho de elenco, especialmente, de Wladimir Winter (Luís
    Garcia) e Dellani Lima ( cigano sanfoneiro), sob a batuta de Abelardo,
    contribuiu bastante para o casamento perfeito da dublagem das falas e da
    construção dos personagens pela interpretação dos atores e dos dubladores. Além
    de atores profissionais, o elenco do filme é formado por moradores de Pains. A
    população local atuando praticamente interpretando eles mesmos, dá ao filme um
    sentido documental. Muitos nunca estiveram em um cinema. Neste “lugar-mundo” ou “sertão-mundo”, Luís
    Garcia continua presente, pois, na cena final, ao passar pelo corpo de Garcia,
    Cigano continua a cavalgar remontando o passado rumo ao presente.

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